Pesquisas desvendam a fauna e a flora da rica Serra do Japi

Andréa Vialli   Gazeta Mercantil - São Paulo, SP   novembro 2


O utilitário XTerra pintado de vermelho e amarelo ainda chama a atenção dos moradores da zona rural de Jundiaí, a cerca de 50 km da capital paulista. Mas eles já se acostumaram com a presença dos pesquisadores da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) que, há 20 anos, percorrem a pé ou em seus próprios veículos, as trilhas e estradas de terra da Serra do Japi. Limitada entre São Paulo e Campinas, as duas maiores cidades do estado, a serra é um resquício de floresta nativa próxima à região mais povoada do País. São cerca de 350 km² de área, dividida entre as cidades de Jundiaí, Cabreúva, Pirapora do Bom Jesus e Cajamar, e altitudes que variam de 700 a 1.300 metros.

Biodiversidade

A serra está localizada em uma região ecotonal - termo que designa as regiões com áreas de transição ou junção entre duas ou mais formações florestais. O domínio é da Mata Atlântica, mas abriga ainda espécies vegetais representativas do cerrado e das florestas de terra roxa. "A serra do Japi é um grande mosaico. A heterogeneidade da flora deve-se às diferenças na altitude, no clima e à interligação com outros ecossistemas, como a Serra do Mar e da Mantiqueira", explica João Vasconcellos Neto, professor do Departamento de Zoologia do Instituto de Biologia da Unicamp. Cambarás, quaresmeiras, aroeiras, arbustos, musgos, samambaias e plantas herbáceas abrigam insetos como o besouro serra-pau e cinco espécies de aranhas sociais, consideradas raras por compartilharem suas teias. Já foram catalogadas 900 espécies de borboletas, o triplo de espécies encontradas em outras matas da região sudeste.

O pesquisador conhece cada trilha, brejo, córrego e cachoeira que se escondem entre a vegetação ora densa, ora mais esparsa. São duas décadas de estudos sobre a biodiversidade da serra, em especial sobre as interações entre animais e plantas e seus impactos recíprocos, como a importância dos insetos para a dinâmica das espécies vegetais. As populações de besouros, aranhas e plantas da família das Solanáceas (como jurubeba, pimenta e pimentão) são atualmente os objetos de interesse de Vasconcellos, que leciona para cursos de graduação e pós-graduação.

A bordo do XTerra, cedido pela Nissan do Brasil Automóveis, o professor leva seus alunos para estudos em campo, partindo da Base de Estudos de Ecologia e Educação Ambiental, desde 1993 mantida pela prefeitura de Jundiaí. É ali que pernoitam os pesquisadores em expedição e são ministradas aulas com ênfase em educação ambiental, por onde já passaram cerca de 10 mil crianças de escolas da região, desde a inauguração. A base serve ainda de espaço para treinamentos com o agrupamento florestal da guarda municipal. São cerca de 20 homens que fazem o monitoramento das áreas da serra que estão no território de Jundiaí (cerca de 47%) e ajudam ainda nas ações de reflorestamento.

Exploração

O fogo é um dos grandes problemas enfrentados pela Serra do Japi. No primeiro semestre deste ano, já foram registrados cerca de 30 focos, a maioria de natureza criminosa, segundo informa o grupamento florestal. Os guardas se desdobram para conter o fogo, e argumentam que as condições de trabalho são precárias, pois faltam equipamentos para contenção dos incêndios e veículos para ajudar na fiscalização da mata.

Hoje eles operam com dois carros de passeio e uma ambulância adaptada, que é usada para carregar o material de combate às queimadas, como enxadas, foices, abafadores improvisados e duas bombas costais, que armazenam até 20 litros de água que são levados para os focos de incêndio.

Mas a ameaça que salta aos olhos é o aumento da especulação imobiliária nas cercanias da serra, que foi transformada em área de proteção ambiental (APA) em 1984, pelas Leis Estaduais 4.095 e 4.023, que disciplina o uso de cerca de 191 km² das terras. Qualquer atividade em sua área deve ter autorização da Prefeitura ou do Departamento Estadual de Proteção aos Recursos Naturais (DPRN) para que não seja considerada infração. A região foi ainda tombada pelo Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Artístico, Arqueológico e Turístico (Condephaat) em 1983.

No entanto, os condomínios residenciais de alto padrão avançam até na área de macrozona de proteção ambiental, delimitada por lei municipal. "Em torno de 90% das terras da serra do Japi são particulares, o que faz a região sofrer pressões do mercado imobiliário. As políticas conservacionistas existem, mas têm oscilado de prefeito para prefeito", alerta Vasconcellos. Ele explica que as características do solo da serra, quartzítico e pouco fértil para a agricultura, contribuíram para que a região ainda mantivesse um certo grau de preservação. Ainda assim, há muitos trechos desmatados para a pastagem do gado e plantio de espécies exóticas, como pinus e eucaliptos. O professor tem planos de fundar uma oscip (sigla para Organização da Sociedade Civil para o Interesse Público) com o objetivo de angariar parceiros para fomentar políticas de preservação da região. "Estas terras não têm outra vocação senão a da conservação ambiental", sentencia.

O marketing verde da Nissan

12 de Novembro de 2003 - O utilitário XTerra SE foi cedido ao Instituto de Biologia da Unicamp em regime de comodato, e além da Serra do Japi também tem auxiliado os pesquisadores em incursões pela Serra do Cipó, em Minas Gerais. Kátia Moço da Costa, diretora de assuntos corporativos da Nissan do Brasil, resume a posição da empresa. "Queremos associar a marca a projetos que, de alguma forma, contextualizem ou coloquem em prática a visão da empresa, que é enriquecer a vida das pessoas", diz.

Além da Unicamp, a Nissan apóia dois outros projetos do gênero no País: a "Expedição Brasil Adentro", que vai identificar pontos de interesse ecoturístico em todo o território nacional; e a ação social "Idéia Fixa por um Sertão sem Fome". No primeiro caso, foram cedidos três veículos: um XTerra (R$ 103 mil), um Frontier (R$ 72 mil) e um Pathfinder (R$ 168 mil). No segundo, foi cedida uma picape Frontier para arrecadação e distribuição de doações para comunidades carentes no sertão do País.

A empresa arca com os custos de manutenção e dá suporte financeiro para a viabilização dos projetos, sem divulgar os valores investidos. "Ao ceder os veículos, estamos unindo as necessidades de cada um dos projetos à vocação da Nissan na fabricação de veículos 4X4. Queremos vincular a marca a ações de repercussão nacional", explica Kátia.